Entrevista com Hedy Epstein.
Por Silvia Cattori - jornalista suíça.
www.silviacattori.net
Hedy Epstein é uma judia alemã sobrevivente do Holocausto, nascida em 1924, cujos pais foram enviados a Auschwitz em 1942, onde morreram. Em 1948 Hedy Epstein foi morar nos Estados Unidos. Em 2003 decidiu viajar a Palestina. Impressionada pela opressão que o governo israelense está impondo aos palestinos, desde então se dedica a que o mundo saiba o que acontece. Na entrevista que concedeu à jornalista suíça Silvia Cattori, Hedy Epstein fala, com sua voz doce e suave, de sua última viagem à Palestina depois de uma comovedora visita a um dos vários campos de concentração aos que foram deportados seus pais. E afirmou:"Gostaria de dedicar esta entrevista as crianças de Gaza, cujos pais não podem protegê-los ou enviá-los fora a um lugar seguro, como fizeram meus pais quando me enviaram à Inglaterra em maio de 1939 em um Kindertransport" (1)
Silvia Cattori: Em 2004, após os humilhantes e desumanos maus tratos que teve que sofrer no aeroporto de Tel Aviv, onde teve que se despir e suportar um registro corporal, como me explicou em nossa primeira conversa (2), estava muito zangada e declarou: "Nunca voltarei a Israel". Mas desde então retornou quatro vezes. No verão passado foi mais uma vez. Como é possível?
Hedy Epstein: Nunca me senti tão irritada como depois do que aconteceu a uma amiga e a mim no aeroporto Ben Gurion em janeiro de 2004.
Quando já estava no avião, escrevi em todas as páginas das revistas que davam no avião: "Sou sobrevivente do Holocausto e 'nunca mais' voltarei a Israel". Algumas vezes apertava a caneta com tanta força contra o papel que rasgava a página. Foi uma humilde forma de descarregar minha irritação.
Quando voltei para casa, ainda muito irritada, traumatizada, decidi procurar ajuda, o que me ajudou a trabalhar contra minha irritação e me permitiu planejar minha seguinte viagem a Cisjordânia só uns meses depois, no verão de 2004. Desde então volto todo ano, já viajei cinco vezes ao todo desde 2003. Retornei porque é o que devo fazer; ser testemunha e fazer saber aos palestinos que há pessoas suficientemente preocupadas como para voltar e ficar a seu lado na luta contra a ocupação israelense. Os palestinos me pediram que quando voltasse para casa contasse para o povo estadunidense o que vi e experimentei, porque o povo estadunidense não sabe o que está acontecendo porque os meios de comunicação não lhes informam. Me comprometi a fazê-lo e aproveitei todas as oportunidades que para honrar este compromisso.
Silvia Cattori: Como interpretou o fato de que o oficial israelense a tratasse dessa maneira tão brutal?
Hedy Epstein: Tentou de me intimidar, de me silenciar, com a esperança de que não voltasse mais. Embora momentaneamente tenha conseguido, em última instância não o conseguiu. Citando o general McArthur, um general do exército estadunidense, que disse "Retornarei", eu voltei quatro vezes desde janeiro de 2004, até mesmo ao aeroporto de Tel Aviv, quando retornava dos territórios ocupados por Israel, e continuarei indo. Não poderão me impedir. E, também, estou planejando chegar por mar a Gaza em alguns meses.
Silvia Cattori: Não foi traumático demais para uma pessoa sensível como você voltar a Cisjordânia e ver os soldados israelenses humilhar, ameaçar, matar e destruir as vidas e as propriedades dos palestinos?
Hedy Epstein: Como estadunidense, sou uma pessoa privilegiada. Sou muito consciente disso e não me sinto confortável de usar essa capa, especialmente quando estou na Palestina, consciente de que posso ir e vir quando eu quiser, um privilégio que se nega aos palestinos, os quais têm enormes dificuldades para ir de um lugar a outro, restringidos por blocos de estradas, checkpoints, o encarcerável muro de quase 8 metros de altura, e por jovens soldados israelenses que decidem quem pode passar e quem não pode; quem pode ir a escola, ao hospital, trabalhar, visitar a família e os amigos.
Vi enormes filas de palestinos no checkpoint de Belém. Falei com um homem de 41 anos que me disse que trabalhava três dias por semana; para chegar a tempo ao trabalho, se levanta às 2:30 da manhã e chega ao checkpoint às 3:15 da manhã para esperar na fila, uma longa fila, junto com muitos outros até que o checkpoint abra por volta das 5:30 da manhã. Ele tem que chegar tão cedo porque tem muita gente fazendo fila. Às vezes os soldados israelenses não deixam ninguém passar. Gostaria de trabalhar o período completo, mas não há trabalho em Belém.
Em cada uma de minhas cinco visitas estive um tempo em Jerusalém. Tenho sido dolorosamente consciente de como suas dimensões e seus limites têm a ver cada vez menos com os parâmetros da cidade histórica; só os assentamentos de Israel, como Har Homa e Gilo, são denominados bairros de Jerusalém. Jerusalém Oriental está salteada de bandeiras israelenses que ondulam nas casas das quais os palestinos foram "retirados", judaizando assim, a área mais e mais.
Durante minha última visita, em agosto de 2007, eu apenas tive tempo para uma breve visita a minha querida amiga palestina e seu marido em Ramala. Em visitas anteriores eu e alguns dos estadunidenses que viajavam comigo fomos seus hóspedes durante vários dias e desfrutamos de sua hospitalidade, típica hospitalidade palestina, diferente de outras que já experimentei em minha vida. A mulher, muito alegre no passado, parecia abatida, embora não se queixava; simplesmente dizia: "A vida é mais difícil desde que meu marido não trabalha". Em uma conversação posterior na que não estava presente seu marido, afirmou que ele havia deixado seu trabalho para ir a estudar. Ambas as declarações são verdade, mas os comentários do marido refletem um esforço para salvaguardar e manter algo de sua dignidade.
Também visitei e fiquei uma noite com meus amigos palestinos e seus filhos em Belém. A televisão, que sempre está ligada, em um momento atraiu nossa atenção. Havia uma notícia sobre os judeus de todo o mundo que imigravam a Israel. Havia muitas bandeirinhas israelenses que davam boas-vindas aos novos cidadãos de Israel que chegavam ao aeroporto Ben Gurion em Tel Aviv. Havia em segundo plano um grande “banner” soletrado em hebraico e inglês: “Bem-vindos a Casa".
Enquanto a notícia continuava, todos observávamos a televisão em silêncio. Então um de nós, não me recordo quem, rompeu o silêncio sem perguntar nada a ninguém em particular: “E o retorno dos Palestinos?”.
Na manifestação não-violenta semanal em Bi'lin, enquanto os jovens soldados israelenses nos lançavam gases lacrimogêneos e todos corríamos para sair dali, eu ouvi uma conversação entre dois garotos palestinos; um dizendo ao outro: "Não quero morrer"; "Eu também não", disse o outro. O temor deles me acompanhou. O que acontecerá com eles? Qual o futuro deles?
E, ainda, apesar da situação de quase desesperança de que pode nunca mudar, o povo palestino é incrivelmente forte. Embora a opressão israelense continue e piore, com novos tipos de opressão militar, os palestinos não desistem; continuam morando lá.
São um povo incrível, resistentes. Nunca se renderão. Os israelenses podem matar muitos deles, destruir suas casas, destruir suas vidas, porém nunca serão capazes de destruir sua esperança de uma maneira diferente de existência, de uma maneira melhor de viver juntos.
Não importa o que os israelenses façam, não podem tirar as esperanças e a dignidade do povo palestino. Os israelenses têm o poder, os palestinos têm a dignidade e apesar de todos os obstáculos, ainda possuem esperança. Os israelenses têm aviões dos quais eles atiram bombas sobre Gaza, têm bulldozers feitos aqui nos Estados Unidos, não distante de minha casa; eles podem fazer todas estas coisas, mas apesar da falta de equilíbrio de poder, os israelenses nunca poderão destruir a esperança e a dignidade dos palestinos.
Silvia Cattori: Não é algo pouco usual e emocionante para os palestinos de Hebrón o Nablus ver a uma sobrevivente do Holocausto viajando em condições tão precárias para expressar-lhes seu amor e sua solidariedade?
Hedy Epstein: Creio que é importante para os palestinos, os que não se permite deixar a Palestina, que vivem baixo a ocupação militar israelense, em condições tão horríveis, saber que há pessoas em outras partes do mundo que condenam a opressão israelense, a as que lhes preocupam o suficiente para vir aqui e compartilhar suas dificuldades e sofrimentos, embora seja durante pouco tempo.
Sempre me impressiona ver que os palestinos conhecem muito bem o que está ocorrendo no mundo. Estão melhores informados que o povo estadunidense.
A maioria dos palestinos que conheci me pediu para contar ao povo estadunidense o que havia visto e experimentado, porque o povo estadunidense não o sabe devido ao que os meios de comunicação não lhes informam. Comprometi-me em fazê-lo. Tenho dado palestras em escolas, universidades, igrejas, grupos da comunidade, tanto nos Estados Unidos como na Alemanha (em alemão). Encorajo pessoas a irem à Palestina para ver e experimentar a vida lá. É uma experiência que muda a vida de alguém. Voltarão pessoas diferentes, mais conscientes, mais sensíveis e com o desafio de fazer a diferença.
Embora não seja uma judia religiosa (me considero uma humanista laica), conheço um pouco sobre a tradição judia que ensina que: "Não nos é permitido renunciar a esperança, nem abandonar o trabalho que começamos, mesmo se não podemos completar nós mesmos a tarefa”.
E assim, a situação é tão espantosa, especialmente em Gaza, que creio que devo seguir sendo uma voz moral, creio que tenho que seguir tendo coragem para adotar uma postura pública contra os crimes israelenses contra a humanidade e as manipulações dos meios de comunicação. Israel não seria capaz de executar seus crimes contra a humanidade sem os Estados Unidos, o mundo, lhes permitindo fazer isso e os meios de comunicação que, salvo poucas exceções, desumanizam os Palestinos e instilam medo, ignorância e aversão a eles e a sua cultura.
Conhecendo aos palestinos, experimentado sua hospitalidade, seu calor, sua dignidade e até seu humor, me encarrego de levar suas vozes, suas experiências a quem queira me ouvir, dar testemunha do Muro, das confiscações de terras, das demolições de casas, da violação de seus direitos, das restrições de liberdade de movimento. Não se pode esperar passivamente por um futuro de paz, especialmente se não com compromissos e lutas por a justiça. Sem justiça não há paz.
Nadav Tamir, o cônsul geral de Israel em Boston, escreveu no periódico Boston Globe em novembro de 2007: "Não se trata já de uma questão de ser pró-palestino o pró-israelense mas sim de uma confrontação entre aqueles que preferem a paz e aqueles que preferem o derramamento de sangue. É o momento de escolher o lado".
Silvia Cattori: Você disse que planeja chegar a Gaza em barco dentro de alguns meses (3)?
Hedy Epstein: Sim, logo. Não há nada que possa me impedir. Estou decidida a ir e vou aprender a nadar, por via das dúvidas. Por diferentes razões o barco "Free Gaza" não pode ir o verão passado. Creio que é importante para todas as pessoas que estão convidadas ao barco, aproveitar esta oportunidade de demonstrar ao mundo o que Israel está realmente fazendo em Gaza e expressar sua intenção de romper o assédio ilegal.
Os meios de comunicação estão tão controlados -provavelmente também por Israel- que, seja qual for o poder que está nos Estados Unidos ou na Europa, nunca transmitirão o que realmente está acontecendo a cada dia em terra; quanto sofrimento está causando a opressão extrema, o que está acontecendo com a gente, não somente a de Gaza, mas também a Cisjordânia, talvez em um grau menor. O mundo necessita saber e se podemos ser esse meio para que o mundo possa saber finalmente o que está ocorrendo, então é importante que desempenhemos este papel.
Silvia Cattori: Enquanto a maioria dos países estão isolando as autoridades de Hamas em Gaza Gaza e cortando-lhes a ajuda humanitária mais essencial, a tomada de poder por parte de Hamas não representa um obstáculo para que vocês cheguem lá?
Hedy Epstein: Não. Hamas foi eleito democraticamente; havia observadores neutros e não encontrarão problema algum nas eleições. Foram eleitos democraticamente. Como você sabe, Estados Unidos queria que houvesse estas eleições, mas esperavam um resultado diferente. Eles não gostaram do fato de Hamas ter vencido as eleições. Por essa razão atacam a Hamas e não querem reconhecer isso, e estão levando a cabo uma espécie de castigo coletivo contra um milhão e meio de pessoas em Gaza. Há uma enorme crise humanitária. O exército israelense controla todos os pontos de saída desde Gaza a Israel, a Jordânia, ao Egito. De fato, eles controlam o ar, a terra e o mar.
Praticamente não é permitido que entre nada e nem permitido que saia nada. Gaza é essencialmente uma comunidade agrícola. Os agricultores de Gaza que, por exemplo, cultivam flores, morangos e tomates gastam muito tempo, energia e dinheiro em cultivar esses produtos e não podem vendê-los! E assim as flores murcham e os morangos e os tomates estragam.
O governo israelense finge que já não ocupa Gaza, mas é mentira.
Silvia Cattori: Sua voz é extremadamente importante para aquelas pessoas que não sabem, ou que não quer saber o que o governo israelense está fazendo realmente. De fato, é muito raro encontrar uma pessoa como você, que pode dar testemunho da opressão Nazista e sobre a atual opressão sionista, capaz de encarar os fatos com um espírito muito honesto!
Hedy Epstein: Não comparo a opressão nazista com a sionista, embora, eu tenho sido acusada disso. Em vez disso, falo das lições aprendidas do Holocausto. Acredito em minhas experiências como sobrevivente do Holocausto como a influência que dirige meus esforços para promover direitos humanos e a justiça. Para mim, "não basta recordar", que é o título de minha autobiografia, publicada em alemão, na Alemanha em 1999, com o título de "Erinnern ist nicht genug." (4) Recordar também deve ter uma perspectiva presente e uma futura.
Que lição aprender do Holocausto? Eu sei o que é estar oprimida. Ninguém pode fazer tudo, mas sei que cabe a mim fazer tudo o que puder, fazer o correto, para que neste caso, esteja com os Palestinos em sua luta contra a opressão israelense, perante a qual existem e lutam casa dia e cada noite.
Por que sobrevivi? Para sentar-me aqui e dizer, sim, as situação está mal, alguém deveria fazer algo. Creio firmemente que todos e cada um de nós, incluindo eu mesma, deve ser esse alguém que tente melhorar a situação.
E isto não quer dizer que os sofrimentos dos palestinos sejam mais ou menos importantes que os de outras pessoas em outros lugares. Mas, eu somente tenho uma quantidade de energia e de tempo cada dia. Em vez de dispersar minha energia por aqui e ali, decidi concentrar-me na questão israelense e palestina.
Silvia Cattori: Indo a Palestina, você foi primeiro à França visitar um dos campos de concentração o qual seus pais foram deportados. Foi sua primeira visita?
Hedy Epstein: Deixe-me esclarecer as coisas. Em 22 de outubro de 1940, todos os judeus da zona sudeste da Alemanha, de onde eu procedia, foram deportados ao campo de concentração de Gurs, situado ao pé dos Perineus, em o que era então a França de Vichy, que colaborou com os alemães. Homens e mulheres estavam separados por arame farpado. Ao final de março de 1941, meu pai foi transferido ao campo de Milles, próximo a Marselha. Em julho de 1942 minha mãe foi transferida ao campo de Rivesaltes, próximo a Perpignan.
Em setembro de 1980 visitei o campo de Gurs, o campo de concentração de Dachau (meu pai esteve lá por quatro semanas depois da Noite de Cristal ou Noite dos Cristais Quebrados em 1938) e Auschwitz. Em 1990, visitei o campo de Milles onde meu pai esteve até que fosse deportado a Auschwitz via Drancy (um campo de trânsito próximo a Paris).
Até agosto de 2007 não pude visitar o campo de Rivesaltes, onde minha mãe esteve por mais ou menos dois meses em 1942, até sua deportação via Drancy para Auschwitz. E no verão passado, visitei com uns amigos o campo de Rivesaltes pela primeira vez.
Em uma carta, datada 9 de agosto de 1942, meu pai me disse: "Amanhã serei deportado a um destino desconhecido. Pode ser que passe muito tempo antes que voltes a saber de mim ..." Em outra carta de 1 de setembro de 1942 minha mãe me disse exatamente o mesmo. E então, recebi outro postal de minha mãe datada 4 de setembro de 1942 no qual me escrevia: "Estou viajando para o leste e te mando meu último adeus .." Esta foi a última vez que me comuniquei com meus pais.
Quando em 1956 soube que meus pais foram enviados ao campo de concentração de Auschwitz na Polônia pude supor que depois de ter passado quase dois anos em campos de concentração na França eles estavam fisicamente em uma condição muito ruim, e que provavelmente os enviaram diretamente à câmara de gás quando chegaram ali.
Silvia Cattori: Quais foram seus sentimentos?
Hedy Epstein: Surpreendi-me com a dimensão do campo, que podia alojar a 30.000 pessoas, em deploráveis condições. Algumas das barracas já não existiam, outras estão caindo, faltando o teto, paredes caindo e a vegetação selvagem invadindo tudo. Desolação por todas as partes. Turbinas de vento próximas se levantavam como sentinelas, vigiando a desaparição do lugar onde um dia, viveram pessoas infelizes, onde um dia viveu minha mãe.
Pela correspondência de minha mãe quando estava lá eu sabia em qual das duas barracas ela tinha estado. Nunca encontrei uma das barracas, provavelmente não exista mais. A outra, a barraca número 21, eu a encontrei.
A entrada para as barracas está alta, o que faz com que seja difícil entrar. Mas na entrada da barraca 21 havia uma tábua de madeira como se estivesse me convidando para entrar. Com ajuda dos meus amigos pude manter o equilíbrio com a ponta dos pés como uma bailarina. Toquei as paredes, talvez onde minha mãe a houvesse tocado, peguei algum dos escombros para levar para casa comigo, tentei imaginar como havia sido a vida de minha mãe ali. Depois sai da barraca pelo lado oposto, saltei para fora em uma área enorme, parado pelo crescimento espinhoso, enquanto me segurava em um lugar. Um de meus amigos observou acerbamente "O edifício não quer que você vá embora”.
Silvia Cattori: Foi benéfica sua visita ao campo de Rivesaltes, fazendo com que se sentisse mais próxima a alma se sua querida mãe?
Hedy Epstein: Me senti muito próxima de minha mãe quando estive lá, eu imaginei como se movia pelo campo, como era aquilo para ela. Ela esteve ali de julho a setembro de 1942, uma época que faz muito calor. Recordo que minha mãe sofria de calor quando ainda vivíamos juntos em Kippenheim. Fazia muito calor quando visitei o campo. Como muitas vezes no decorrer de minha vida, recordei do “imerecido privilégio" que desfrutei. Graças ao enorme e não egoísta amor de meus pais eu escapei do que eles tiveram que suportar. Enviando-me para a Inglaterra em um Kindertransport em 1939 de maio, meus pais me deram literalmente vida em uma segunda vez.
Silvia Cattori: Deve ter sido uma visita muito comovente para você, uma volta a um período muito triste de sua vida, longe de seus pais!
Hedy Epstein: Antes de deixar a Alemanha e ir à Inglaterra no Kindertransport meus pais me deram muitos conselhos, para ser boa, honesta, e sempre acabavam dizendo "nos veremos em breve". Eu acreditei que nos veríamos novamente em breve, mas nunca soube se meus pais também acreditavam nisso. Meus pais e eu nos escrevíamos cartas diretamente até que Inglaterra declarou a guerra a Alemanha em 3 de setembro de 1939. A partir daí já não foi possível nos escrevermos diretamente. Ao invés, nós trocamos 25 mensagens pela Cruz Vermelha.
Após meus pais serem enviados aos campos de Vichy na França, pudemos voltar a corresponder-nos diretamente. Porém, só era permitido aos meus pais escrever somente uma página por pessoa por semana. Eu podia escrever tudo que queria e quantas vezes queria. Meus pais nunca me escreviam sobre as horríveis condições as que eram obrigados a "viver"; eu só soube quando a guerra acabou.
Pensando retrospectivamente na época na que estive na Inglaterra, eu era uma menina muito triste e não me permitia realmente entrar em contacto com meus sentimentos e temores. Como lhes disse, cada um dos meus pais, me escreveu em suas últimas cartas antes de sua última deportação (a Auschwitz): "Provavelmente passará muito tempo antes que voltes a saber de mim" Quanto tempo é muito tempo? Uma semana, um mês, um ano, dez anos? Desde então eu desejava com todas minhas forças voltar a estar com meus pais e não parava de dizer a mim mesma: "Ainda não passou muito tempo, tenho que esperar mais um pouco”. Negava os fatos. Era incapaz de aceitar o inevitável, o falecimento de meus pais. Estive jogando este jogo psicológico durante muito tempo; para mim era uma maneira de sobreviver, um mecanismo de auto-conservação. Não pude aceitar o fato de que meus pais e outros membros de minha família não sobreviveram até setembro de 1980, quando visitei Auschwitz e permaneci no lugar chamado "Die Rampe" (a rampa), aonde chegavam os caminhões de gado nos anos quarenta, e se obrigava as pessoas a sair deles e o Dr. Mengele e seus coortes (tropa) selecionavam quem viveria e quem morreria (na câmara de gás). É muito tempo para negar um fato. Talvez essa negação substituiu o processo de luto habitual.
Silvia Cattori: Obrigada por esta emocionante entrevista.
1) http://www.kindertransport.org/history.html N. da t: Se refere a uma associação britânica que entre 1933 e 1939 pode levar a Inglaterra a 10.000 meninos judeus de até 17 anos, a maioria dos quais foram acolhidos em famílias britânicas e outros nos orfanatos.
2) Sobre os abusos dos agentes de segurança israelense contra Hedy Epstein: http://www.jkcook.net/Articles2/0165.htm http://www.palestinechronicle.com/story-06140794938.htm
3)http://www.counterpunch.org/cattori06072007.html http://www.voltairenet.org/article150755.html
4)http://www.unrast-verlag.de/unrast,2,18,5.html
A entrevista original em inglês pode ser encontrada em: http://www.silviacattori.net/article358.html
Versão em português: Vanessa Bortucan, Florianópolis.
"¿QUÉ LECCIÓN HAY QUE APRENDER DEL HOLOCAUSTO?"
Entrevista a Hedy Epstein.
Por Silvia Cattori - www.silviacattori.net
Hedy Epstein es una superviviente del Holocausto judía alemana, nacida en 1924 y cuyos padres fueron enviados a Auschwitz en 1942, donde murieron. En 1948 Hedy Epstein se fue a vivir a Estados Unidos. En 2003 decidió viajar a Palestina. Impresionada por la opresión que el gobierno israelí está imponiendo a los palestinos,desde entonces se ha dedicado a darlo a conocer al mundo.
En la entrevista que concedió a la periodista suiza Silvia Cattori, Hedy Epstein habla, con su voz dulce y suave, de su último viaje a Palestina después de una conmovedora visita a uno de los varios campos de concentración a los que fueron deportados sus padres.
Y afirmó:"Quisiera dedicar esta entrevista a los niños de Gaza, cuyos padres no pueden protegerlos o enviarlos fuera a un lugar seguro, como hicieron mis padres cuando me enviaron a Inglaterra en mayo de 1939 en un Kindertransport" (*)
Silvia Cattori : En 2004, tras los humillantes y deshumanizantes malos tratos que tuvo que sufrir en el aeropuerto de Tel Aviv, donde se tuvo que desnudar y soportar un registro corporal, como me explicó en nuestra primera conversación [1], estaba muy enfadada y declaró: "No volveré nunca a Israel". Pero desde entonces ha vuelto cuatro veces. El verano pasado fue otra vez. ¿Cómo es posible?
Hedy Epstein : Nunca me he sentido tan enfadada como después de lo que nos pasó a una amiga y a mí en el aeropuerto Ben Gurion en enero de 2004.
Cuando ya estaba en el avión, escribí en cada página de las revistas que daban en el avión: "Soy una superviviente del Holocausto y ’nunca jamás’ volveré a Israel". A veces apreté tan fuerte el bolígrafo contra el papel que rompí la página. Fue una manera humilde de quitarme el enfado.
Cuando volví a casa, todavía muy enfadada, traumatizada, decidí buscar consejo, lo que me ayudó a trabajar contra mi enfado y me permitió planear mi siguiente viaje a Cisjordania sólo unos meses después, en verano de 2004. Desde entonces he vuelto cada año, cinco veces en total desde 2003. He vuelto porque es lo que tengo que hacer; ser testigo y hacer saber a los palestinos que hay algunas personas lo suficientemente preocupadas como para volver y estar a su lado en la lucha contra la ocupación israelí. Los palestinos me han pedido que cuando vuelva a casa le cuente al pueblo estadounidense lo que he visto y experimentado, porque el pueblo estadounidense no sabe lo que está ocurriendo debido a que los medios de comunicación no les informan. Me comprometí a hacerlo y he aprovechado todas las oportunidades que he tenido de honrar este compromiso.
Silvia Cattori : ¿Cómo interpretó el hecho de que el oficial israelí la tratara de esa manera tan brutal ?
Hedy Epstein : Trató de intimidarme, de silenciarme, con la esperanza de que no volviera nunca. Aunque momentáneamente puede que lo consiguiera, en última instancia no lo logró. Citando al general McArthur, un general del ejército estadounidense, que dijo "Volveré", he vuelto cuatro veces desde enero de 2004, incluso al aeropuerto de Tel Aviv, cuando volvía de los territorios ocupados por Israel, y continuaré yendo. No podrán detenerme. Y también estoy planeado llegar por mar a Gaza en unos meses.
Silvia Cattori : ¿No fue demasiado traumático para una persona sensible como usted volver a Cisjordania y ver a los soldados israelíes humillar, amenazar, matar y destruir las vidas y las propiedades de los palestinos?
Hedy Epstein : Como estadounidense, soy una privilegiada. Soy muy consciente de ello y no me siento cómoda de llevar esa capa, especialmente cuando estoy en Palestina, consciente de que puedo ir ahí y marcharme cuando yo quiera, un privilegio que se les niega a los palestinos. Ellos tienen enormes dificultades para moverse de un sitio a otro, están restringidos por controles de carretera, check points, el encarcelador muro de 8 metros de altura, se lo impiden jóvenes soldados israelíes que deciden quién puede pasar y quién no; quién puede ir al hospital, a trabajar, a visitar a la familia y a los amigos.
He visto enormes colas de palestinos en el checkpoint de Belén. Hablé con un hombre de 41 años que me dijo que trabajaba tres días a la semana; para llegar a tiempo al trabajo, se levanta a las 2:30 A.M. y llega al checkpoint a las 3:15 A.M. para esperar en cola, una larga cola, junto con muchos otros a que el checkpoint abra sobre las 5:30 A.M. Tienen que llegar tan pronto porque hay mucha gente haciendo cola. A veces los soldados israelíes no dejan pasar a nadie. Le gustaría trabajar a tiempo completo, pero no hay trabajo en Belén.
En cada una de mis cinco visitas estuve un tiempo en Jerusalén. He sido dolorosamente consciente de cómo sus dimensiones y sus límites tienen que ver cada vez menos con los parámetros de la ciudad histórica; sólo los asentamientos de Israel, como Har Homa y Gilo, son denominados barrios de Jerusalén. Jerusalén este está salteado de banderas israelíes que ondean en las casas de las que han sido "sacados" los palestinos, con lo que la zona de judaiza cada vez más. Durante mi última visita en agosto de 2007 sólo tuve tiempo para una breve visita a mi querida amiga palestina y su marido en Ramala. En visitas anteriores yo y algunos de los estadounidenses que viajaban conmigo fuimos sus huéspedes durante varios días y disfrutamos de su hospitalidad, típica hospitalidad palestina, que es diferente de cuantas he experimentado en mi vida. La mujer, muy alegre en el pasado, parecía abatida, aunque no se quejaba; simplemente decía: "La vida es más difícil desde que mi marido no trabaja". En una conversación posterior en la que no estaba presente su marido, afirmó que había dejado su trabajo para ir a estudiar. Ambas cosas son verdad, pero los comentarios del marido reflejan un esfuerzo para salvaguardar y mantener algo de su dignidad.
También visité y me quedé una noche con mis amigos palestinos y sus hijos en Belén. En un momento dado la tele, que siempre está encendida, atrajo nuestra atención. Había una noticia sobre los judíos de todo el mundo que inmigraban a Israel. Había muchas banderitas israelíes que daban la bienvenida a los nuevos ciudadanos de Israel que llegaban al aeropuerto Ben Gurion en Tel Aviv. Había una gran pancarta en segundo plano en hebreo e inglés "Bienvenidos a casa". Mientras seguía la noticia, todos mirábamos la tele en silencio. Entonces uno de nosotros, no recuerdo quién, rompió el silencio sin preguntar a nadie en particular: "¿Qué hay del retorno de los palestinos?".
En la manifestación no-violenta semanal en Bi’lin, mientras los jóvenes soldados israelíes nos lanzaban gases lacrimógenos y todos corríamos para huir de ahí, oí una conversación entre dos chicos palestinos; uno decía al otro: "No quiero morir"; "Yo tampoco", dijo el otro. Este temor suyo me ha acompañado. ¿Qué habrá sido de ellos? ¿Qué futuro tienen?
Y, sin embargo, a pesar de la situación de casi desesperanza que puede que no cambie nunca, el pueblo palestino es increíblemente fuerte. A pesar de que continúa la opresión israelí y empeora con nuevos tipos de opresión militar, los palestinos no se han rendido; siguen viviendo ahí.
Son un pueblo increíble, resistente. Nunca se rendirán. Los israelíes pueden matar a muchos de ellos, destruir sus casas, destruir sus vidas, pero nunca serán capaces de destruir su esperanza de una manera diferente de existencia, de una manera mejor de vivir juntos. No importa lo que hagan los israelíes, no pueden quitar las esperanzas y la dignidad del pueblo palestino. Los israelíes tienen el poder, los palestinos tienen dignidad y a pesar de tenerlo todo en contra, todavía tienen esperanza. Los israelíes tienen aviones desde los que tiran bombas sobre Gaza, tienen bulldozers hechos aquí en Estados Unidos, no lejos de mi casa; pueden hacer todas esas cosas pero, a pesar de la falta de equilibrio de poder, los israelíes nunca podrán destruir la esperanza y la dignidad de los palestinos.
Silvia Cattori : ¿No es algo poco usual y emocionante para los palestinos de Hebrón o Nablus ver a una superviviente del Holocausto viajando en unas condiciones tan precarias para expresarles su amor y su solidaridad?
Hedy Epstein : Creo que es importante para los palestinos, a los que no se permite dejar Palestina, que viven bajo la ocupación militar israelí en condiciones tan horribles, saber que hay personas en otras partes del mundo que condenan la opresión israelí, a las que les preocupan lo suficiente como para venir aquí y compartir sus dificultades y sufrimientos, aunque sea durante poco tiempo. Un y otra vez me impresiona ver que los palestinos conocen muy bien lo que está ocurriendo en el mundo. Está mejor informados que el pueblo estadounidense.
La mayoría de los palestinos a los que conocí me pidieron que le contara al pueblo estadounidense lo que había visto y experimentado, porque el pueblo estadounidense no lo sabe debido a que los medios de comunicación no les informan. Me comprometí a hacerlo. He dado charlas en institutos, universidades, iglesias, grupos de la comunidad, tanto en Estados Unidos como en Alemania (en alemán). Insto a la gente a que vaya a Palestina para ver y experimentar la vida allí. Es una experiencia que cambia la vida de uno. Volverán personas diferentes, más conscientes, mas sensibles y con el desafío de hacer algo para influenciar a los demás.
Aunque no soy una judía religiosa (me considero una humanista laica), conozco un poco la tradición judía que enseña que: "No nos está permitido ni abandonar la esperanza ni abandonar el trabajo que hemos empezado, incluso si no podemos completar nosotros mismos la tarea". La situación es tan espantosa, especialmente en Gaza, que creo que debo seguir siendo una voz moral, creo que tengo que seguir teniendo valor de adoptar una postura pública contra los crímenes israelíes contra la humanidad y las manipulaciones de los medios de comunicación. Israel no podría llevar a cabo sus crímenes contra la humanidad si Estados Unidos, el mundo, no les permitiera hacerlo y sin los medios de comunicación que, salvo pocas excepciones, deshumanizan a los palestinos e inculcan miedo, ignorancia y aversión hacia ellos y su cultura.
Habiendo conocido a los palestinos, experimentado su hospitalidad, su calor, su dignidad e, incluso, su humor, a mí me corresponde llevar sus voces, sus experiencias a quien quiera oírme, dar testimonio del Muro, de las confiscaciones de tierras, de las demoliciones de casas, de la violación de sus derechos, de las restricciones de libertad de movimientos. No se puede esperar pasivamente el futuro de la paz sino que más bien hay que hacerlo con compromisos y luchas por la justicia. Sin justicia no hay paz.
Nadav Tamir, el cónsul general israelí en Boston, escribió en el periódico Boston Globe en noviembre de 2007: "No se trata ya de una cuestión de ser pro-palestino o pro-israelí sino de una confrontación entre aquellos que prefieren la paz y aquellos que prefieren el derramamiento de sangre. Es el momento de elegir el bando".
Silvia Cattori : ¿Ha dicho que planea llegar a Gaza en barco dentro de unos meses [2]?
Hedy Epstein : Sí, desde luego. No hay nada que pueda pararme. Estoy decidida a ir y voy a aprender a nadar, por si acaso. Por diferentes razones el barco "Free Gaza" no pudo ir el verano pasado. Creo que para todas las personas que están invitadas al barco es importante aprovechar esta oportunidad de demostrar al mundo lo que Israel está haciendo realmente en Gaza y expresar su intención de romper el asedio ilegal.
Los medios de comunicación están tan controlados -probablemente también por Israel- que, esté el poder en Estados Unidos o en Europa, nunca transmitirán lo que realmente está ocurriendo cada día sobre el terreno; cuánto sufrimiento está causando la opresión extrema, lo que le está ocurriendo a la gente, no sólo a la de Gaza, sino también a la de Cisjordania, quizá en un menor grado. El mundo necesita saber y si podemos ser ese medio para que el mundo pueda saber finalmente lo que está ocurriendo, entonces es importante que desempeñemos este papel.
Silvia Cattori : Mientras que la mayoría de los países están aislando a las autoridades de Hamas en Gaza y cortándoles la ayuda humanitaria más esencial,¿la toma de poder por parte de Hamas no representa un obstáculo para que ustedes lleguen allí?
Hedy Epstein : No. Hamas fue elegido democráticamente; hubo observadores neutrales y no encontraron problema alguno en las elecciones. Han sido elegidos democráticamente. Como usted sabe, Estados Unidos quería que hubiera estas elecciones, pero esperaban un resultado diferente. No les gustó el hecho de que ganara Hamas. Por eso atacan a Hamas y no quieren reconocerlo, y están llevando a cabo una especie de castigo colectivo contra un millón y medio de personas en Gaza. Hay una enorme crisis humanitaria. El ejército israelí controla todos los puntos de salida desde Gaza a Israel, a Jordania, a Egipto. De hecho, controla aire, tierra y mar.
Prácticamente no se permite que entre nada ni tampoco se permite que salga nada. Gaza es esencialmente una comunidad agrícola. Los agricultores de Gaza que, por ejemplo, cultivan flores, tomates y fresas gastan mucho tiempo y energía en cultivar estos productos ¡y no pueden venderlos! Y así las flores se marchitan y las fresas y los tomates se pudren.
El gobierno israelí pretende que ya no ocupa Gaza, pero es mentira.
Silvia Cattori : Su voz es extremadamente importante para aquellas personas que no saben, o que no quieren saber lo que está haciendo realmente el gobierno israelí. Es más, ¡es muy raro encontrar a una persona como usted, que puede dar testimonio de la opresión de los nazis y acerca de la actual opresión del sionismo, capaz de encarar los hechos con un espíritu muy honesto!
Hedy Epstein : No comparo la opresión nazi con la sionista, sin embargo, se me ha acusado de hacerlo. En vez de ello, hablo de las lecciones aprendidas del Holocausto. Acredito mis experiencias como superviviente del Holocausto como la influencia que dirige mis esfuerzos para promover los derechos humanos y la justicia. Para mí, "no basta con recordar ", que es el título de mi autobiografía, publicada en alemán en Alemania en 1999 con el título de "Erinnern ist nicht genug" [3]. Recordar también tienen que tener una perspectiva presente y futura.
¿Qué lección hay que aprender del Holocausto? Yo sé lo que es estar oprimida. Nadie puede hacer todo, pero creo que a mí me incumbe hacer todo lo que pueda, hacer lo correcto que, en este caso, es estar de parte de los palestinos en su lucha contra la opresión israelí, bajo la que existen y luchan cada día y cada noche.
¿Por qué sobreviví? ¿Para sentarme y decir, sí, las cosas están mal, alguien debería hacer algo? Creo firmemente que todos y cada uno de nosotros, incluida yo misma, tiene que ser ese alguien que trate de mejorar la situación.
Y esto no quiere decir que los sufrimientos de los palestinos sean más o menos importantes que los de otras personas en otros lugares. Pero yo sólo tengo una cantidad de energía y de tiempo al día. En vez de dispersar mi energía por acá y por allá, decidí concentrarme en la cuestión israelí y palestina.
Silvia Cattori : Camino de iba a Palestina, fue primero a Francia a visitar los campos de concentración a los que fueron deportados sus padres, ¿fue su primera visita?
Hedy Epstein : Déjeme que le aclare las cosas. El 22 de octubre de 1940 todos los judíos de la zona sudeste de Alemania, de donde yo procedía, fueron deportados al campo de concentración de Gurs, situado al pie de los Pirineos en lo que entonces era la Francia de Vichy, que colaboró con los alemanes. Hombres y mujeres estaban separados por alambre de espino. A finales de marzo de 1941 mi padre fue transferido al campo de Milles, cerca de Marsella. En julio de 1942 mi madre fue transferida al campo de Rivesaltes, cerca de Perpignan.
En septiembre de 1980 visité el campo de Gurs, el campo de concentración de Dachau (mi padre estuvo en él cuatro semanas tras la Noche de Cristal o Noche de los Cristales Rotos en 1938) y Auschwitz. En 1990 visité el campo de Milles donde estuvo mi padre hasta que fue deportado a Auschwitz vía Drancy (un campo de tránsito cerca de París).
Hasta agosto de 2007 no pude visitar el campo de Rivesaltes, donde estuvo mi madre cerca de dos meses en 1942, hasta su deportación vía Drancy a Auschwitz. Y el verano pasado visité con unos amigos el campo de Rivesaltes por primera vez.
En una carta fechada el 9 de agosto de 1942 mi padre me dijo: "Mañana me van a deportar a un destino desconocido. Puede que pase mucho tiempo antes de que vuelvas a saber de mí ..." En otra carta del 1 de septiembre de 1942 mi madre me dijo exactamente lo mismo. Y entonces recibí otra postal de mi madre fechada el 4 de septiembre de 1942 en la que me escribía: "Estoy viajando al este y te mando mi último adiós .. " Esta fue la última vez que me comuniqué con mis padres.
Sólo cuando en 1956 supe que mis padres habían sido enviados al campo de concentración de Auschwitz en Polonia pude asumir que después de haber pasado casi dos años en campos de concentración en Francia estaban en muy malas condiciones físicas y que probablemente los enviaron directamente a la cámara de gas cuando llegaron allí.
Silvia Cattori : ¿Cuáles fueron sus sentimientos?
Hedy Epstein : Me sorprendieron las dimensiones del campo, que podía albergar a 30.000 personas, y sus deplorables condiciones. Algunas de las barracas ya no existían, otras se habían derrumbado, les faltaba el techo, se habían derrumbado las paredes y la maleza lo invadía todo. Había desolación por todas partes. Turbinas de viento se levantaban cerca como centinelas, vigilando la desaparición del lugar donde un día vivieron personas desafortunadas, donde un día vivió mi madre.
Por la correspondencia de mi madre cuando estuvo allí yo sabía en qué barracas había estado. Nunca encontré una de las barracas, probablemente ya no exista. La otra, la barraca número 21, la pude encontrar.
La entrada a las barracas está alta, lo que hace que sea difícil entrar. Pero a la entrada de la barraca 21 había un tablón de madera como invitándome a entrar. Con ayuda de mis amigos pude mantener el equilibrio mientras entraba de puntillas, como una bailarina. Toqué las paredes quizá donde mi madre las había tocado, recogí alguno de los escombros para llevármelos a casa, traté de imaginar cómo había sido la vida de mi madre allí. Después salí de la barraca por el lado opuesto, salté fuera a una zona llena de maleza en la que me quedé atrapada. Uno de mis amigos señaló de manera dolorosa:"El edificio no quiere que te vayas".
Silvia Cattori : ¿Le resultó beneficiosa su visita al campo de Rivesaltes al hacerle sentir más cerca del alma de su querida madre?
Hedy Epstein : Me sentí muy cerca de mi madre mientras estuve allí; me imaginé cómo se movía por el campo, cómo era aquello para ella. Estuvo allí desde julio a septiembre de 1942, una época en la que hace mucho calor. Recuerdo que mi madre sufría del calor cuando todavía vivíamos juntos en Kippenheim. Hacía mucho calor cuando visité el campo. Como muchas veces a lo largo de mi vida recordé la vida "de un inmerecido privilegio" que he disfrutado. Gracias al enorme y no egoísta amor de mis padres yo escapé de lo que ellos tuvieron que sufrir. Enviándome a Inglaterra en el Kindertransport en mayo de 1939, mis padres literalmente me dieron la vida por segunda vez.
Silvia Cattori : Debió de ser una visita muy emotiva para usted, una vuelta a un periodo muy triste de su vida, lejos de sus padres.
Hedy Epstein : Antes de dejar Alemania e ir a Inglaterra en el Kindertransport mis padres me dieron muchos consejos, que fuera buena, que fuera honesta, y siempre acababan diciendo "nos veremos enseguida". Yo sí creía que nos íbamos a ver pronto, pero nunca sabré si mis padres también lo creían. Mis padres y yo nos escribimos cartas directamente hasta que Inglaterra declaró la guerra a Alemania el 3 de septiembre de 1939. A partir de entonces ya no fue posible escribirnos directamente. En vez de ello intercambiamos 25 mensajes a través de la Cruz Roja.
Después de que mis padres fueran enviados a los campos de Vichy en Francia pudimos volver a escribirnos directamente. Sin embargo, a mis padres sólo se les autorizaba a escribir una página por persona a la semana. Yo podía escribir todo lo que quisiera cuantas veces quisiera. Mis padres nunca me escribían sobre las horribles condiciones a las que estaban obligados a "existir"; yo sólo lo supe cuando acabó la guerra.
Pensando retrospectivamente en la época en la que estuve en Inglaterra, yo era una niña muy triste y no me permitía a mí misma entrar realmente en contacto con mis sentimientos y temores. Como le he dicho, mi padre y mi madre, cada uno de ellos, me escribió en sus últimas cartas antes de su última deportación (a Auschwitz): "Probablemente pasará mucho tiempo antes de que vuelvas a saber de mí" ¿Cuánto tiempo es mucho tiempo? ¿Una semana, un mes, un año, diez años? Desde entonces deseaba con todas mis fuerzas volver a estar con mis padres y no paraba de decirme a mí misma: "Todavía no ha pasado mucho tiempo, tengo que esperar un poco más". Negaba los hechos. Era incapaz de aceptar lo inevitable, el fallecimiento de mis padres. Estuve jugando este juego psicológico durante mucho tiempo; para mí era una manera de sobrevivir, un mecanismo de auto-conservación. No pude aceptar el hecho de que mis padres y otros miembros de mi familia no sobrevivieron hasta septiembre de 1980, cuando visité Auschwitz y permanecí en el lugar llamado "Die Rampe" (la rampa), adonde llegaban los vagones de ganado en los cuarenta, se obligaba a la gente a salir de ellos y el Dr. Mengele y sus cohortes seleccionaban a quienes iban a vivir y a quieres morirían (en la cámara de gas). Es mucho tiempo para negar un hecho. Quizá esa negativa sustituyó el proceso de duelo habitual.
Silvia Cattori : Gracias por esta emocionante entrevista.
(*) http://www.kindertransport.org/history.html N. de la t: Se refiere a una asociación británica que entre 1933 y 1939 pudo llevar a Inglaterra a 10.000 niños judíos de hasta 17 años, la mayoría de los cuales fueron acogidos en familias británicas y otros en orfanatos.
Silvia Cattori