CONTAMINA합ES

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CONTAMINA합ES - Por Anita Prado Koneski

Diante dos instigantes trabalhos do grupo do projeto Contaminações, somos convidados a pensar o processo artístico de um modo outro. Trata-se de uma experiência artística desafiadora, que questiona o processo da arte e a própria experiência artística mediante a poética da Infância. Cada artista realizou cinco obras e confiou ao outro, seu colega do grupo, a interferência (Contaminações). A interferência propiciou entrar no universo do Outro, e isso abriu para questões teóricas instigantes: sobre a autoria da obra, sobre o acabado e o não acabado na obra plástica, sobre as marcas deixadas por um e por outro artista na obra, e sobre a ação individual de cada ao interferir na criação do outro.

Todas essas questões não são novidades como discussão teórica. Porém, em Contaminações, elas assumem uma singularidade reflexiva própria. Nele a singularidade do estilo de cada componente fundou a imagem poética tramada com o discurso teórico decorrente do processo do grupo, que resultou na expressividade dos trabalhos que os artistas Philippe Arruda, Dirce Korbes, Juliana Hoffmann, Susana Bianchini e Carlos Asp nos apresentam. As questões teóricas foram discutidas ao longo das criações, portanto, elas são parte integrante da proposta do grupo Contaminações, que entende ser inerente ao processo do projeto uma ação pedagógica. Retomar a pesquisa sobre a pintura com visibilidade a outras questões e outros modos de fazer parece ser, dentre muitos, o grande trunfo do Projeto Contaminações.

Assim, cada obra gerada a partir dessa proposta é o entrelaçamento de falas (de duas falas) que formam diante de nosso olhar uma única fala, ou seja, a imagem. Mesmo que saibamos como se deu o processo, não nos parece pertinente, diante da obra, indagar sobre o autor da imagem, ou o que desapareceu, ou o que ficou da forma deste ou daquele artista. Tudo continua ali, nada desapareceu. Enigmático paradoxo. As formas de um e de outro estão ali, sem legislarem sobre o espaço para dar-se a ver, ao contrário, ambas insinuam-se na harmonia do diálogo. Deixam vestígios, marcas e rastros que “murmuram” nas imagens que se entrelaçam, realizando a fala secreta que se dá entre cores, colagens, fotografias, veladuras, além das incertezas entre o cuidado e a coragem de interferir na imagem do outro, ou, ainda, entre a obscuridade e a clareza da fala poética das imagens, que insistem em realizar-se com expressividade, e que entre elas o artista ministra o acordo.

Assim, no embate entre a forma e o conteúdo, vence a congenialidade do poeta das imagens com o mundo do Outro (ali presente mediante as formas) e o seu mundo que, poeticamente, resulta por parecer conhecer-se de longa data, tamanha a afinidade e a beleza. Uma realidade onírica. O artista conhecedor do voo onírico conhece a elasticidade, essa propriedade de acolher a obra do outro e dela fazer sua e do Outro ao mesmo tempo, sem restrições. Ele sabe como tramar as formas, tecer os conteúdos, de maneira que haja apenas uma fala sem direitos autorais adquiridos.

Porém, também é verdade que, para aqueles que têm afinidade com os artistas e seus estilos, o diálogo entre as poéticas brinca de velar-se e desvelar-se. Ora nos salta aos olhos a poética de Asp, com suas formas circulares dinâmicas sobre o firme papel, como quebra-cabeças infantis que ficam inseridos em alguma paisagem. Ou as cores vibrantes de Susana, que firmam os símbolos-memória da infância no espaço que interferem. Ou o véu de acrílico de Juliana, que torna a imagem velada, despertando desejos no olhar, velando até mesmo suas próprias formas. Ou ainda a apurada técnica fotográfica que se impõe, ora para aprisionar com grades, ora para a liberdade de brincar, que marca os espaços de Philippe. E as imagens de Dirce, que se insinuam em silhuetas da infância, colocadas tão disponíveis pela artista, para serem amparadas pelas interferências. Enfim... um voo poético em que a infância anda, de cá e de lá, na paisagem das recordações de nossa vida. Esses desvelos poéticos são a memória guardada que a arte sabe muito bem deixar ver, sem desmanchar as tramas dos seus segredos.

O grupo Contaminações apresenta imagens que tramam a infância e os seus segredos na trama dessas memórias fragmentadas, tais como no movimento de nossa própria memória, que guarda fragmentos de recordações e as conserva escondidas nas tramas da existência. Suas formas mostram, e ao mesmo tempo escondem, por detrás das linhas, cores, colagens, fotografias, o devir da memória. De outro lado, esse jogo das formas e do processo proposto fundam a reflexão teórica, instigam a discussão e movimentam uma ação pedagógica.



Anita Prado Koneski - Professora de Filosofia e História da Arte na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).